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Croquis: Desenhar em liberdade

08/09/2012 17:30 EM Design Moda


Por detrás do design há todo um conjunto de ferramentas de expressão criativa, entre as quais nenhuma se iguala ao velho díptico lápis-papel. Poderíamos falar de arquitectura ou até de cartografia, mas falaremos de moda, do desenho e da liberdade do traço, apoiados nos croquis de Tiago Loureiro, coleccionador de predicados.



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© Croquis de Tiago Loureiro.

Desenhar sobre um papel é, à primeira vista, um processo livre, sem constrangimentos nem barreiras para além do limite do talento e da própria imaginação. Mas, na verdade, não é assim. Quem desenha sabe que será julgado e avaliado por outros, e daí que procure a exactidão, uma técnica que domine bem, de modo a que o seu processo criativo resulte numa representação perfeita. Este desenho de representação é desde logo limitado, nas suas múltiplas formas. O croqui é algo diferente. Materializa aquilo que o criador processa, para que ele próprio possa ordenar e relacionar-se com a sua obra, de forma simples e espontânea.

A origem do termo croqui remonta ao início do século XIX: vem do francês croquer, que significa simplesmente esboçar, e pode aplicar-se às mais diversas áreas, da arquitectura à moda. Croqui não tem outro significado que o do desenho rápido, do bosquejo, do esquisso, não exigindo, portanto, grande precisão ou refinamento gráfico. Não representa uma ideia acabada e formatada pelo colectivo – é uma experiência individual, de descoberta e experimentação, como a pintura ou a escultura. Nele está contido o raciocínio e a emoção do indivíduo criador, moldados pelo processo criativo próprio, a caminho de um resultado inesperado.

Observando as imagens, o croqui é um desenho de linha pura, com eventuais texturas simples, mais representativas que realistas, colorido ou não. É uma forma de desenho mais livre, ainda que o seu propósito possa ser muito objectivo. Aproxima-se do desenho infantil e da sua liberdade de expressão única, sem pretender a exactidão dos traços ou um perfeito domínio da técnica. Distancia-se do resultado formal, mas compreende igualmente o registo do desenvolvimento do processo criativo e, envolvendo uma linguagem própria que varia de indivíduo para indivíduo, torna-se um acontecimento particular e dinâmico que permite ampliar a percepção da possibilidade e aí romper com os estereótipos presentes na memória. Ao criador traz o novo, o protótipo mutável, deixa espaço à sugestão de quem vê.

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© Croquis de Tiago Loureiro.

Nos croquis – por serem registos de ideias ou de emoções instantâneas – é evidente que é a estética e não tanto a técnica que se pronuncia, e isso é óbvio na moda. As figuras e as roupas permitem a ilusão do movimento e, com ele, uma representação dramática que imprime no desenho a sensação de quem cria, aquela que se pretende ao primeiro contacto e mais tarde, continuamente, com a peça criada.

A relação do croqui com a moda é muito especial. A guerra, como nenhum outro evento, traz o cosmopolitismo (falemos das conquistas de Alexandre Magno, do vasto Império Romano ou das Guerras Mundiais, e o efeito colateral é sempre o mesmo). Principalmente nos anos que se seguiram à II Guerra Mundial – durante a guerra ninguém produzia peças novas – o florescimento das casas de moda, muitas que hoje reconhecemos como as grandes, atraiu as atenções de compradores de todo o mundo aos grandes centros criativos. Paris era já a referência, e criadores como Balenciaga, Chanel ou Givenchy enviavam aos clientes croquis, acompanhados por pequenas amostras de tecido. Grandes compradores nos EUA, por exemplo, a milhares de quilómetros de Paris, e numa altura em que as comunicações e os transportes não eram o que hoje conhecemos, podiam assim conhecer as colecções e fazer as suas encomendas. Havia um certo encanto na espera, a curiosidade aguçada de quem aguarda pela correspondência.

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© Croquis de Tiago Loureiro.

Esses tempos passaram. O luxo foi democratizado. Agora enviam-se colecções inteiras para qualquer ponto do globo e são feitas captações exaustivas em fotografia e vídeo de cada peça, de cada coordenado. Diz-se no meio que são poucos, e cada vez menos, os criadores que incluem o croqui como passo primeiro do seu processo criativo. E desses, dificilmente o público verá os esboços. No entanto, para aqueles que começam, para aqueles que têm o talento e não estão ainda sob a pressão avassaladora de mudar tudo a cada estação, pelo menos para esses, este tipo de desenho é ainda o grande veículo de representação gráfica artística, deixando as novas tecnologias num segundo plano. O croqui trata da liberdade – questões como “qual o comando certo?” ou “como desenho isto?” não podem surgir aqui.

“O desenho é a honestidade da arte. Não há possibilidade de trapaça. Ou se é bom, ou se é mau.”, dizia Dalí, apontando uma perspectiva estanque e directa que nos lembra que desenhar pode ser complicado, que desenhar bem não é de todo fácil e não é certamente para todos. Para o talentoso português Tiago Loureiro, finalista do curso de Design de Moda da Universidade da Beira Interior, blogger (vale a pena visitar StreetLights.pt), entre muitas outras coisas, que gentil e exclusivamente produziu belíssimos croquis para ilustrar este artigo, o desenho surge naturalmente como forma de expressão genuína. O croqui como apreensão fragmentária e transformativa da realidade, manifestação do génio criativo.

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© Croquis de Tiago Loureiro.

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© Croquis de Tiago Loureiro.

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© Croquis de Tiago Loureiro.

Fonte: Obvius

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